Recomendo a leitura deste texto
fonte: Os Patriarcas - coincidências ou repetições da história?
JOSÉ:
“EIS ME AQUI”
DEUS NUNCA FALOU COM
ELE!
A grande verdade é que Jacó, assim
como seu pai e avô, também enfrentou problemas familiares, pois não soube criar
seus filhos, por isso Deus requisitou um, José, para prepará-lo para uma grande
obra e para preservá-lo.
Deus tirou o filho de
Jacó para cuidar dele pessoalmente, para ensiná-lo e prepará-lo para governar o
Egito. Se continuasse no meio daquela família desestruturada, certamente, José
seria um mero pastor de ovelhas envolvido em constantes conflitos familiares.
A prova de que Jacó não soube criar
seus filhos foi justamente o fato de ter repetido os mesmos erros de seus
antepassados, pois amou mais a José, despertando desta forma ciúmes e acirrando
a rivalidade entre seus filhos. Ele não teria como disfarçar este sentimento,
na verdade, não existe possibilidade do homem demonstrar atenção a um, sem
provocar ciúmes em outros.
Somente Deus é capaz de atender
necessitados, em particular, sem magoar os outros. Este sentimento humano é
alimentado pelos nossos olhos, pois o ciúme nasce no momento em que enxergamos
a atenção Divina sendo dispensados a outros. Isto soa como concessão de
privilégios e não como socorro de Deus aos necessitados.
A história da família deste
patriarca foi conturbada, uma vez que sempre ficou caracterizado a preferência
de Jacó, que fez questão de conceder alguns privilégios a José, sem contar
outros acontecimentos, que diferenciava o seu filho predileto:
- Era o filho da velhice de Jacó;
- Era filho da mulher que Jacó amava;
- Ficava no conforto enquanto seus irmãos trabalhavam;
- Recebia os melhores presentes;
- Conhecia a vontade de Deus para a sua vida através da revelação recebida em seus sonhos;
- Espiava seus irmãos no trabalho, mas não ficava entre eles.
José estava sempre ao lado de seu
pai ouvindo suas histórias sobre as chamadas de seu avô e bisavô, Isaque e Abraão,
respectivamente. Aprendia, servia e alegrava o velho coração de Jacó, enquanto
seus irmãos pastoreavam o rebanho em terras distantes, talvez para ficarem
alheios a diferenciação demonstrada pelo pai.
Todos os problemas de José foram com
os seus dez irmãos mais velhos, já que o menor, Benjamim, não teria como
reivindicar algo, pois era o último filho. O fato de contar os seus sonhos[1]
e a preferência explícita de seu pai aumentavam ainda mais a rivalidade entre
eles, que de tanto ciúmes não se sujeitavam a autoridade potencial e inevitável
na vida do futuro patriarca.
De fato os irmãos de José não
estavam errados, pois no contexto social e familiar os privilégios deveriam ser
do primogênito e não de outros filhos. Isto somente seria possível por uma intervenção
de Deus, uma inversão da ordem dos filhos[2].
OBEDECER SEM QUESTIONAR - “EIS ME
AQUI”
Jacó enviou José para verificar a
situação de seus irmãos, pois estavam distantes. O certo é que não precisavam
pastorear tão longe, mas o que motivou este repentino afastamento? Falta de
pasto ou o ciúmes e inveja? A preocupação do pai era a mesma com todos eles,
apesar de deixar bem evidente a sua preferência.
José foi enviado para o lugar onde,
supostamente, estavam seus irmãos, se ele não havia ido antes para ajudar no
trabalho iria agora com outra missão, ver como estavam e voltaria para dar
notícias ao seu pai.
Ver seus irmãos trabalhando seria
uma forma de José aprender com eles, ou seja, ele veria como não deveria se
portar, pois a visão que teve foi deplorável, assustadora, medonha, viu dez
homens sentados, murmurando, reclamando da vida, arquitetando o mal. O fato de
ter ido ao encontro deles foi justamente para ver, aprender e para ser
diferente.
Mas se fosse ao contrário, se José
estivesse pastoreando sozinho e se os irmãos fossem enviados para verificarem
sua situação, eles iriam? Ou na metade do caminho voltariam com falsas noticias
para Jacó? O mesmo aconteceu com Davi[3]
que pastoreava o rebanho de seu pai enquanto seus irmãos aguardavam ansiosos
pela unção que seria ministrada pelo profeta Samuel.
Eles largariam aquela festa para se
preocuparem com o irmão? Nenhum deles mexeria uma única palha para mudarem a
situação de Davi, muito menos os irmãos de José fariam algo por ele.
Isto prova que não são todos os que
respondem “eis me aqui” quando são incumbidos de uma missão. Não restava outra
resposta de José ao seu pai. Os que respondem prontamente são os que:
- Estão constantemente na presença do pai;
- Gostam de seus irmãos;
- Tem interesses, objetivos e metas;
- Não temem o perigo, as distâncias ou dificuldades.
José foi enviado como um cordeiro
inocente para encontrar lobos famintos. Esta era a chance que eles tanto
esperavam para resolverem as diferenças.
Jacó era conhecedor do plano que
Deus tinha com sua família, por isso, zeloso, ordenou ao seu filho que fosse
averiguar, espiar a situação de seus irmãos, mas não imaginava que ao pedir que
voltasse logo, estaria na verdade se despedindo de seu filho, não era um até
logo, mas sim um: “até daqui uns anos”.
COINCIDÊNCIAS OU REPETIÇÕES DA
HISTÓRIA?
Abraão havia feito o mesmo com
Isaque, quando o levou como um cordeiro para o sacrifício, acreditando que os
dois voltariam sãos e salvos, da mesma forma, Jacó esperava o seu breve
retorno. No seu entender Deus daria mais um livramento para seu filho, durante
o cumprimento desta missão. Somente não esperava que fosse demorar.
José obedeceu prontamente as ordens
do pai e foi ao encontro de seus irmãos, porém no meio do caminho se perdeu,
mas como sempre acontece, nestas circunstâncias, ele foi auxiliado por um varão
que lhe indicou o caminho correto.
A juventude e a inexperiência não
foram obstáculos para impedirem que José contemplasse a intervenção Divina em
sua vida. Aquele varão não era um qualquer, por isso ele creu em suas palavras
e tomou a direção indicada. Em circunstâncias semelhantes aconselharíamos
alguém a agir desta forma? Acreditamos no primeiro que aparece? Somos ensinados
pela Palavra a vigiarmos e sermos prudentes, orarmos e buscarmos em Deus.
Aquele varão conhecia a intenção de
José, sabia o seu destino e o desejo do teu coração, por isto jamais o deixaria
perdido e fora do rumo.
Não precisava ter perguntado o
motivo que levara José aquelas terras, mas era necessário que ele mesmo
declarasse que ainda não havia desistido de sua missão. Encontrar seus irmãos
ainda era o seu grande objetivo.
O varão lhe indicou o caminho
correto, mas ao dizer que ouviu seus irmãos dizerem que iriam para Dotã, ele
estava revelando a sua onisciência, onipresença e onipotência, ou seja, ele não
disse que estava ao lado dos irmãos, disse simplesmente que ouviu. Não restava
dúvida quanto a identidade do varão.
Da mesma forma como acontecera com
seu pai, que um dia optou por um destino para fugir de seu tio Esaú, agora ele
decidia acreditar, naquele varão, para se dirigir ao encontro de seus futuros
algozes.
O seu bisavô Abraão também enfrentou
o mesmo dilema quando escolheu o caminho para se separar de seu sobrinho. Pelos
seus olhos optou pelo lado que lhe poderia oferecer a vitória, pois ele não
estava preocupado com a continuidade de seu rebanho, mas sim com a sua
descendência. José acreditou no varão, não duvidou e seguiu o caminho indicado.
Ora se Deus houvera visitado os teus ascendentes no passado não teria o porquê
de não visitá-lo também.
Seus irmãos o viram de longe e a
princípio, pensaram em matá-lo, mas resolveram somente vendê-lo como escravo
aos midianitas (descendentes do filho de Abraão e Quetura).
Mas antes de concretizarem a venda
jogaram José em uma cova e deixaram-no, sem água, sem comida, humilhado,
tiraram-lhe tudo, exceto a vida. Para completar a crueldade comeram ao lado da
cova sem ao menos demonstrarem preocupação com ele. Cada um pegou as suas duas
moedas de prata e livres de qualquer sentimento de culpa continuaram seus
trabalhos, mas como usaram este dinheiro? Esconderam de Jacó? Rendeu algo?
Prosperaram? Resolveram o problema ou criaram outro pior?
A túnica[4]
manchada e rasgada apresentado ao pai, não atestava[5]
a morte de José, apenas trazia sofrimento, angustia, saudades e dores para o
pai.
Uma história semelhante a de Jó,
inclusive no desfecho final, pois os dois alcançaram a vitória a partir do
momento em que desviaram a atenção de suas respectivas situações para se
preocuparem com os problemas de outros. O primeiro poderia ter se recusado a
orar pelos seus amigos, enquanto que o segundo, um dia teve o poder e todos os
motivos do mundo para se vingar de seus irmãos, porém os dois agiram de forma
diferente da lógica humana.
Ser jogado na cova para ser vendido
como um escravo, igualou José aos seus irmãos, e o desqualificou, tirou-lhe o
valor, cultura, família, as prerrogativas de filho predileto e conforto que tinha
na casa do pai.
José, da mesma forma como seu
bisavô, Abraão, também teve perdas materiais no momento em que disse sim ao
chamado:
- Perdeu a sua túnica, presente de seu pai, que lhe foi tirada bruscamente pelos irmãos;
- Perdeu a liberdade, pois foi jogado em uma cova e vendido como escravo;
- Perdeu sua dignidade, honra, nome, passado e sonhos;
- Foi acusado, sendo inocente, preso sem julgamento e ficou refém da ingratidão.
Este foi o momento de maior tristeza
da vida de Jacó, pois ao ver as vestes ensangüentadas de seu filho julgava que
nunca mais tornaria a vê-lo. Estava passando pela mesma situação de seu pai
quando fugiu para Padã-Arã, ameaçado de morte por Esaú, ficando por muito tempo
sem dar notícias a Isaque, porém entre estes episódios havia uma grande
diferença, o segundo patriarca ainda alimentava esperanças de reencontrar um
dia seu filho, o que seria seu sucessor na linhagem patriarcal, enquanto que
Jacó estava diante da constatação da morte de José, que tanto amou.
Jacó, mesmo depois da trágica
notícia, sabia que a história não terminaria ali, poderia até mesmo demorar,
mas Deus honraria as promessas feitas. Não poderia ser aquilo um pagamento
pelos seus erros e mentiras do passado? A sua consciência o acusava dia e
noite. Assim como enganara seu pai, estava ele sendo enganado pelos seus
próprios filhos.
Mas será que Jacó creu em toda a
história contada pelos seus filhos? Era homem de oração, por isso deve ter
buscado um refrigério para sua alma.
Imaginemos que ele não tivesse
acreditado na história e começasse a interceder pelo filho todos os dias,
pedindo a Deus que guardasse ou trouxesse de volta. Deus teria um argumento
para sossegar o seu coração de pai. Não havia motivos para que o reencontro com
José fosse antecipado, sendo que ele voltaria pobre, doente, sujo, sem
autoridade nenhuma, os conflitos na família continuariam e até mesmo aumentariam.
Não seria melhor esperar, para que ele voltasse rico, com poder e autoridade,
cheio de vida e saúde? Jacó, espere mais um poucochinho de tempo.
JOSÉ:
REINE SOBRE O EGITO
E SOBRE OS SEUS IRMÃOS
Quantos pensamentos assolaram a
mente de José durante a sua caminhada até ao Egito. Que reviravolta em sua
vida! O que poderia fazer para mudar aquela situação? Jurar fidelidade a Deus,
mudar sua conduta?
Era tarde demais para pensar em
algo? Deveria aceitar a situação e permanecer como uma bênção durante o
trajeto, já que não temos notícias de tentativa de fuga, rebelião, mesmo porque
não teria condições físicas para tal.
Quando José chegou ao Egito como
escravo, foi comprado por Potifar para servi-lo em sua casa e com o passar dos
dias ganhou a confiança do seu senhor, até que este lhe permitiu transitar por
todas as dependências de sua casa.
Sua primeira impressão foi horrível,
pois encontrou um povo estranho, imoral, cultura, tradições e ensinamentos
baseados na idolatria e imoralidade de homens que não respeitavam os bons
costumes, tudo isto contrário ao que havia aprendido de seu pai, porém durante
a adaptação, enfrentou tudo de cabeça erguida e nunca se deixou contaminar por
nada.
Uma luz no fim do túnel se ascendeu
para José, prova de que não estava tudo perdido, mas ainda não era um
livramento. Deus queria testá-lo diante da riqueza e nobreza, já que na pobreza
e miséria havia se mostrado fiel.
Enquanto esteve com seu pai, durante
a caminhada como escravo, nos momentos em que serviu como empregado e nos
longos dias no cárcere, José foi uma benção, mas um dia ele foi preso, vítima
da trama armada pela mulher[6] de
Potifar. Mesmo na prisão teve uma vida regrada aos bons costumes, por
isso ganhou a confiança do carcereiro, portanto
não tinha como Deus não abençoá-lo ou engrandecê-lo.
Todas as pessoas que passaram pela
vida de José ou os que o rodearam, perderam características essências,
justamente as que ele sempre manteve durante o tempo de sua luta:
- Seus irmãos perderam a sensibilidade;
- Potifar perdeu a visão a ponto de não enxergar a inocência de seu empregado;
- O copeiro perdeu a chance de demonstrar toda a sua gratidão a José;
- Faraó perdeu a confiança em seus deuses e a depositou no Deus de José.
Quando o atormentado Faraó não
encontrou respostas para as suas aflições, foi surpreendido com a declaração do
copeiro-mor, que então se lembrou de José, o intérprete de sonhos da prisão.
Sempre tem alguém por perto para dar testemunho das ações de homens de Deus.
Naamã, chefe do exército sírio recebeu sua cura devido ao crédito que deu as
informações de uma de suas criadas[7].
Certamente Faraó deve ter se
inteirado sobre as condições físicas, psicológicas e morais de José, pois não
teria cabimento receber um maltrapilho, um prisioneiro, problemático ou
alucinado, pelo menos este era o protocolo da época. Rapidamente prepararam o
jovem, mudaram suas vestes e o apresentaram diante da maior autoridade daquela
nação.
José entrou escoltado na prisão em
silêncio e foi jogado no xadrez. Durante sua estadia naquele lugar, orava a
Deus pedindo sua liberdade e nada mais, pois é impensável que ele tenha
demonstrado fé suficiente para pedir uma audiência com Faraó ou muito menos o
segundo trono do Egito, sequer pensou em pedir roupas novas, corte de cabelo,
um quarto no palácio e o respeito dos egípcios e de outras nações. Ele pedia
somente uma oportunidade para rever sua família e voltar para sua terra.
Na saída da prisão ele também esteve
ao lado dos batedores e foi levado diretamente para a barbearia, cabeleireiro e
deu volta em uma lojinha de departamentos egípcia para dar uma renovada no seu
guarda roupa, antes do encontro com o desequilibrado Faraó, o que disse de boca
cheia: “não o deixe vir como está[8]”.
Naquele dia ele acordou na fria
prisão com o barulho de alguém batendo em sua cela, chamando-o pela última vez
de prisioneiro. Após o encontro com Faraó, ele seria tratado de outra forma,
deveria ser chamado de “vice-Faraó”, de senhor.
- José levou um susto quando o soldado lhe disse: “Tem alguém querendo lhe falar”. Quem poderia ser? Ele não tinha advogado, os amigos de prisão eram ingratos, a família estava há quilômetros de distância, quem estava ali para visitá-lo? O importante não era com quem iria falar, mas sim quem queria falar com ele. Não era uma visita, uma audiência concedida, era uma convocação. Faraó desejava ardentemente pedir socorro.
A fama de interpretador de sonhos
correu rapidamente e agitou os corredores do palácio egípcio. Como em sã
consciência alguém poderia imaginar a grande e potente nação sendo abalada pelo
temor de uma crise. O pior, para eles, era aceitar que o salvador[9]
da pátria, um simples hebreu, sem qualquer qualificação ou formação, estava ali
nas frias e solitárias prisões, esperando o momento para cantar o hino da
vitória.
José não somente interpretou os
sonhos de Faraó, como também lhe deu uma aula de administração e sábios
conselhos:
- Faraó deveria prover-se de um varão inteligente e sábio[10] e nomear governadores;
- Este homem deveria ser respeitado como uma grande autoridade no Egito;
- A quinta parte de toda a produção egípcia deveria ser retida durante os anos de fartura;
- Deveriam ajuntar o máximo que pudessem de comida e trigo, pois a crise se aproximava.
A preocupação de Faraó era com o
presente, a de José era com os quatorze anos seguintes. Mas porque tanta
preocupação de um simples e desprezado hebreu? Ele estava prestes a sair do
anonimato.
QUEM
É ESTE HOMEM
QUE ESTÁ ASSOMBRANDO O
EGITO?
Todos os sábios e estudiosos do
Egito ficaram alvoroçados com a decisão de Faraó em recompensar um
ex-prisioneiro[11]
pela interpretação e conselhos dados.