segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Hermenêutica - aula 2

II – REGRAS DE INTERPRETAÇÃO

1ª REGRA: INTERPRETAR SEGUNDO O SIGNIFICADO DAS PALAVRAS

Enquanto for possível, é necessário tomar as palavras no seu sentido usual e comum. Regra natural e simples, porém importantíssima, pois caso ignorada, fatalmente muitas partes da Escritura não terá o devido sentido. A interpretação deve ocorrer levando em conta o significado das palavras.

Um exemplo é a palavra carne, que algumas vezes pode ter um sentido comum (Ez 11.19), mas em outros significa a natureza humana (Jo 1.14; Rm 1.3) e em outros casos faz alusão à natureza pecaminosa do homem (Rm 8.5, Ef 2.3). Em Gênesis 6.12, lemos que toda carne havia corrompido, portanto, quando tomamos as palavras “carne” e “caminho” no sentido figurado facilmente entenderemos que se tratam, respectivamente, de pessoas e costumes, modo de proceder ou religião. 

Sangue é outra palavra que pode tomar significados diferentes dependendo da correta interpretação, exemplo: “Caia sobre nós o seu sangue" (Mt 27.25), nesta passagem toma o sentido de culpa. “Sendo justificados pelo seu sangue" (Rm 5.9), traz o sentido da obediência de Jesus até a morte. “...o sangue de Cristo purificará a nossa consciência das obras mortas" (Hb 9.14), isto é, o sacrifício de Jesus é o fundamento da justificação e o instrumento e o motivo da santificação.

 

2ª REGRA: INTERPRETAR SEGUNDO O OBJETIVO DO LIVRO

Esta regra de interpretação é útil e nos leva a conhecer o objetivo dos livros. Por exemplo: a carta aos Gálatas foi escrita porque membros da igreja, influenciados por mestres judaizantes, pensavam em ser justificados guardando a lei e observando os ritos judaicos (Gl 2.16; 3.1-6). A carta de Tiago teve por objetivo provar que ninguém podia ser justificado por uma fé passiva, uma fé que não produza boas obras. Nesta regra é importante considerar o desígnio ou objetivo, tanto do livro, quanto das passagens. Os diferentes autores da Bíblia viveram em tempos, culturas, situações sociais e regiões diferentes. Os livros foram escritos por sacerdotes, Sumo-sacerdote, reis, copeiro, escribas, profetas, governador, pastores, cobrador de impostos, agricultores, médico, pescadores, entre outros, portanto, eram culturas distintas que atendiam os anseios de cada época, mas que também visualizavam o cenário da humanidade ao longo da historia.

 

3ª REGRA: CONTEXTO

É importantíssimo a observação da parte que vem antes ou depois do texto, por isso não se deve interpretar um texto sem o auxílio do contexto, para não se inventar um pretexto (Lc 19.8-44; At 8.30-31; Is 53.7). Esta regra diz ser necessário tomar as palavras no sentido indicado no contexto, consultando sempre os versículos que precedem, quanto os que se seguem. Exemplo: "Quando éramos menores, estávamos servilmente sujeitos aos rudimentos do mundo" (Gl 4.3, 9-11), nesta passagem o que são os rudimentos do mundo? O que vem depois da palavra nos explica que são práticas de costumes judaicos. 

Outro exemplo: “e também os que dormiram em Cristo estão perdidos” (I Co 15.18). Se lermos apenas este versículos teremos a certeza de que todos os que morreram em Cristo estão perdidos, no entanto se lermos os versículos anteriores e posteriores entenderemos a ideia de Paulo.

 

4ª REGRA: INTERPRETAR A BÍBLIA PELA PRÓPRIA BÍBLIA

Quando o conjunto da frase ou o contexto não bastam para explicar uma palavra duvidosa, procura-se às vezes adquirir seu verdadeiro significado consultando outros textos. O principio desta regra é interpretar a Bíblia pela própria Bíblia e é também chamado de consulta às passagens paralelas. Se este princípio fosse sempre seguido muitos erros seriam evitados. 

A revelação de Jesus dada aos discípulos: "tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja" (Mt 16.18), quando comparamos esta passagem com a afirmação de Paulo de que o único fundamento da Igreja é Cristo, fica clara a correta interpretação (1 Co 3.11). 

Outro exemplo: "Trago no corpo as marcas de Jesus" (Gl 6.17), quais marcas eram essas? A frase e muito menos o contexto nos elucidam a passagem, portanto torna-se necessário recorrer a outras passagens (II Co 4.10; 11.23). O rei Davi que andou segundo o coração de Deus, foi ele portanto um exemplo de perfeição a ser seguido? Não, pois foram muitas suas faltas e erros. Buscando os paralelos encontramos a resposta (I Sm 2.35; 13.14). Outros casos são: (Lc 16.16 x Mt 11.13 e At 2.21 x Mt 7.21).

 

5ª REGRA – INTERPRETAÇÃO DO TEXTO

É aquilo que a passagem quer dizer no tempo, no espaço e nas circunstâncias que foram escritas. O literalismo busca o que o texto quer dizer (Jo 21.6), já o simbolismo valoriza o que a figura quer dizer (Ap 3.20).

 

6ª REGRA: APLICAÇÃO DO TEXTO

Um mesmo texto pode ser aplicado à pessoas ou clãs, independente de épocas ou situações geográficas (Mt 13.24-30). O texto facilmente será entendido, pois independe de época ou localização geográfica.

 

7ª REGRA – FIGURAS DE  RETÓRICA 

  • Metáfora: semelhança entre dois objetos ou fatos, caracterizando-se um com o que é próprio do outro. Quando Jesus disse que é a videira verdadeira e os discípulos eram as varas, na verdade Ele estava dizendo que era tronco verdadeiro que transmite vida e forças aos crentes para produzirem frutos. Outros exemplos: “Eu sou a porta; Eu sou o caminho; Eu sou o pão vivo; Vós sois o sal, edifício, etc”.
  • Sinédoque: quando se toma a parte pelo todo ou o todo pela parte, o plural pelo singular, o gênero pela espécie, ou vice-versa. Exemplos: “Minha carne repousará segura", poderia ter dito o meu corpo repousará, mas optou por usar carne.  “Este homem é uma peste e promove sedições entre os judeus dispersos por todo o mundo”, estava falando apenas do mundo conhecido e dominado pelo Império romano alcançado por Paulo;
  • Metonímia: quando se emprega a causa pelo efeito, ou o sinal ou símbolo pela realidade que indica o símbolo. Exemplo: Eles têm Moisés e os profetas; ouçam-nos", poderia ter dito: “eles tem os escritos de Moisés e dos profetas”;
  • Prosopopéia: personificação de coisas inanimadas, atribuindo-lhes os feitos e ações das pessoas. Exemplo: “Onde está, ó morte, o teu aguilhão”? (1 Co 15.55). “O amor cobre multidão de pecados" (1 Pd 4.8). “Os montes e os outeiros romperão em cânticos diante de vós, e todas as árvores do campo baterão palmas";
  • Ironia: quando se expressa o contrário do que se quer dizer, porém sempre de tal modo que se faz ressaltar o sentido verdadeiro. Exemplo: Paulo emprega esta figura quando chama aos falsos mestres de “os tais apóstolos”, dando a entender ao mesmo tempo que de nenhum modo são apóstolos. (2 Co 11.5,13; 12.11). Elias usou este recurso no Carmelo quando disse aos sacerdotes sobre o falso deus Baal. "Clamai em altas vozes e despertará, ou quem sabe intente alguma viagem", dando-lhes a compreender, por sua vez, que era de todo inútil gritarem. (1 Rs 18.27);
  • Tipo: classe de metáfora que não consiste meramente em palavras, mas em fatos, pessoas ou objetos que designam fatos semelhantes, pessoas ou objetos no porvir. Estas figuras são numerosas e chamam-se na Escritura “sombra de coisas futuras” e se encontram, portanto, no Antigo Testamento. Exemplo: Jesus fez referência à serpente de metal levantada no deserto, como tipo, prefigurando a crucificação do Filho do homem (Jo 3.14). Noutra ocasião Jesus se referiu aos fatos acontecidos com Jonas como tipo, prefigurando sua sepultura e ressurreição (Mt 12.40). Paulo nos apresenta o primeiro Adão como tipo, prefigurando o segundo Adão, Jesus  e o Cordeiro Pascoal como o tipo do Redentor (Rm 5.14; 1 Co. 5.7) Sobretudo, a carta aos Hebreus faz referência aos tipos do Antigo Testamento, como, por exemplo, ao sumo sacerdote que prefigurava a Jesus; aos sacrifícios que prefiguravam o sacrifício de Cristo; ao santuário do templo que prefigurava o céu, etc. (Hb 9.11-28; 10.6-10);
  • Simbolo: espécie de tipo pelo qual se representa alguma coisa ou algum fato por meio de outra coisa ou fato familiar que se considera a propósito para servir de semelhança ou representação. Exemplos: o leão é considerado o rei dos animais, assim é que Jesus é simbolizado. A força se representa pelo cavalo e a astúcia pela serpente. (Ap 5.5; 6.2; Mt 10.16). As chaves, pela importância, nos da ideia de autoridade (Mt 16.19). As portas das cidade e povoados serviam como fortaleza.

Por: Ailton da Silva - 12 anos (Ide por todo mundo)

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