sábado, 2 de outubro de 2021

Prefiro murmurar no deserto. As dez murmurações do primogênito. Capítulo 2

O LIVRAMENTO

Alguns assistiam atônitos, outros revoltosos, uma pouca parcela é provável que estivesse clamando juntamente com o líder, ajudando-o, mesmo em suas limitações espirituais. Diante desta cena ficou comprovado, mais uma vez, que ainda dependiam muito de Moisés.

Após o ocorrido no Egito e no mar Vermelho era de se esperar que enxergassem o clamor como uma ferramenta acessível e disponível a qualquer um, tal como aconteceu no Egito quando as lamentações, choros e orações foram ouvidas por Deus. 

“E ele clamou ao Senhor, e o Senhor mostrou-lhe um lenho que lançou nas águas, e as águas se tornaram doces: ali lhe deu estatutos e uma ordenança, e ali os provou” (Ex 15.25). 

Os mais eufóricos esperavam gritos de Moisés, incentivos, chamado à aglomeração, uma grande reunião, trajes de gala, mas se espantaram quando o viram se dirigindo a um pequeno arbusto, de onde retirou um insignificante lenho, um galhinho, um pedacinho de madeira, que foi jogado na água.

Um ato tão simples, tanto quanto seria a caminhada do povo em direção à Terra Prometida. Um simples pedaço de madeira, aparentemente, sem utilidade, podre, desprezado por qualquer um.

Quando Moisés contemplou aquele lenho deve ter se lembrado da sarça ardente que não se consumia e rapidamente associou as duas[1] visões e tomou a iniciativa.

A experiência adquirida com Deus, desde o nascimento, o ensinou a não perder oportunidades e tampouco desprezar qualquer evidência de operação Divina, por menor ou insignificante que fossem os instrumentos ou meios.

Foram vários acontecimentos que contribuíram para o enriquecimento espiritual de Moisés, entre eles:

  • O barquinho feito de junco pela sua mãe, que se tornou a grande providência em prol de sua vida;
  • O simples escravo hebreu ajudado, por ele, enquanto sofria violência de um egípcio;
  • Os quarenta anos em que se portou como um mero pastor em Midiã cuidando de ovelhas que nem suas eram;
  • Os momentos em que se apresentou diante de Faraó, como o embaixador da Terra Prometida, se submetendo ao tempo e aos desígnios de Deus, pois poderia ter pedido que acabasse de uma vez por toda aquela situação, uma visita ao governante e já tudo seria resolvido;
  • O momento em que fez uso de seu comum cajado, para que as águas do Mar Vermelho fossem divididas. Agora em Mara, fazia uso daquele pedaço de madeira, lenha ou galhinho de arbusto. Toda esta experiência não poderia ser desprezada por Moisés.

Muitos imaginavam que viria um grande sinal do céu ou algo semelhante ao que havia acontecido no mar Vermelho, mas ao contrário viram um simples pedacinho de madeira que não estava em chamas e que tampouco brilhava como ouro. Na verdade era insignificante, porém uma valiosa ferramenta[2] para Moisés.

Um novo livramento foi dado ao povo, através, um lenho mostrado por Deus e visto por Moisés que sem hesitar o lançou nas águas, fazendo com que se tornassem aptas para o consumo.

Qualquer tentativa de rebelião foi coibida com esta ação de Deus, que fez questão de usar seu servo como instrumento, aos olhos de todos, para a realização de mais uma maravilha, pois aquelas águas poderiam ser transformadas sem a necessidade da atuação de Moisés, mas para manter a ordem e o controle Deus assim o fez, de uma forma tão simples e eficaz.

Aquele livramento era uma demonstração de que Israel não estava só naquela caminhada, uma prova espetacular de que era propriedade exclusiva e particular de Deus, que ainda se mostrava misericordioso com aquele povo, mesmo depois desta murmuração.

O livramento foi recebido com festa por todos, que de tão satisfeitos que estavam não perceberam a nova forma de comunicação que acabara de ser instituída por Deus. Estatutos, ordenanças e provações serviriam para revelar a vontade Divina, daquele momento em diante, por isto fascinados[3] com todos os acontecimento, juraram fidelidade até a morte, mas não conseguiram manter este juramento devido a duas circunstâncias, vejamos:

  • Natureza má: A natureza má dos hebreus era capaz de fazê-los quebrar os vários propósitos firmados com Deus, mesmo que presenciassem grandes milagres não se desvencilhavam[4] do velho homem, fato este comprovado pelas murmurações. Mesmo depois dos livramentos recebidos não permitiam que estes momentos aumentassem o temor e a confiança, pelo contrário continuavam incrédulos tal como quando ainda estavam no Egito, quando não conheciam a Deus (Ex 3.13);
  • Emoção: Quando se viam em dificuldades procuravam Moisés, pois consideravam-no uma espécie de porta voz, já que Deus sempre o ouvia. Esperavam que intercedesse por suas vidas e quando recebiam o livramento se mostravam confiantes, até mesmo passavam uma imagem de fiéis, porém quando a poeira baixava e ao primeiro sinal de normalidade esqueciam-se de tudo. O fascínio e temor pelo agir de Deus acabava rapidamente.

Caso estivessem ali bem supridos de mantimentos ou com abundância de água se manteriam fiéis? Ou seriam como muitos que somente se lembram de buscarem a Deus durante a necessidade e que tão logo alcançam a vitória se esquecem e voltam a praticar os mesmo erros?

Deus usou este episódio para deixar bem claro que todos estavam sendo provados. Durante a caminhada no deserto se mostraram fracos e foram infiéis, pois murmuraram facilmente e muitas vezes desejaram o retorno ao Egito, sempre que a situação não se mostrava favorável.

Do sofrimento e dores foram diretamente para a sombra e água fresca. Em Mara, encontraram somente derrotas e nada de água boa, mas em Elim, um lugar para os vitoriosos descansarem, a história foi diferente. Momento ideal para comemorarem mais um livramento, porém mesmo diante de um cenário perfeito não poderiam demorar, já que havia um lugar melhor para ser conquistado.



[1] A primeira foi a visão da sarça em chamas e permanecendo intacta (Ex 3.2).

[2] Poderiam ter guardado aquele pedaço de lenho, assim como guardaram a vara de Arão e a pequena porção de maná (Dt 10.1-5; 1 Rs 8.9; 2 Cr 5.10 cf Hb 9.4).

[3] A cada operação de Deus, o fascínio do povo aumentava, porém não havia manifestação da genuína conversão.

[4] Por várias vezes olharam com bons olhos um possível retorno ao Egito (Ex 14.12; 16.3; 17.3; Nm 14.3), então por lembrarem tanto do passado não entrariam nas terras do futuro, a Terra Prometida (Nm 14.32-33).

Por: Ailton da Silva - 12 anos (Ide por todo mundo)

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