sábado, 2 de outubro de 2021

Os patriarcas. Coincidências ou repetições da história? – Capítulo 11

A história de Jacó. Coincidência ou repetições da história

A trajetória de Jacó desde o início foi conturbada, seu nascimento, suas confusões com Esaú, enquanto jovem, a compra da primogenitura, quando se imaginou o homem mais feliz do mundo, sentimento que aumentou após ter recebido a bênção que seria de seu irmão, mas por tudo isto vieram os problemas, a fuga, seus dois casamentos e quatro esposas, os atritos profissionais com seu tio e as confusões de seus filhos e filha.

No seu reencontro com Esaú imaginava que tudo mudaria, mas após a morte do pai, os dois tomaram caminhos[1] diferentes e para aumentar, ainda mais, suas preocupações, os seus filhos quase comprometeram a segurança da família durante o envolvimento de Diná com o heveu Siquém.

Depois Ruben, o primogênito, manchou o leito do pai, ao se relacionar com uma de suas concubinas.

Judá também o entristeceu quando se envolveu com sua nora, Tamar, pensado que fosse uma prostituta, mas nada disto poderia ser comparado a dor que sentiu quando seus filhos chegaram com a notícia da morte de José. Depois de muitos anos se alegrou novamente, após ficar a par de todo o ocorrido.

Agora, no Egito, viveria os seus últimos anos de vida, com a família reunida, usufruindo de todos os recursos que foram colocados à disposição de seus filhos pastores. Deus reservou a melhor parte de todo território egípcio[2]. Estavam radiantes de alegria por esta bênção tão inesperada.

Enquanto estava em Canaã, a sua preocupação era somente com a falta de condições dignas ou mínimas de vida. A sua esperança maior era avistar seus filhos retornando do Egito com os mantimentos, que durariam alguns poucos dias. Ou teria tido fé suficiente para pedir ou imaginar algo mais?

Rever seu filho preferido, morar na melhor porção de terra do Egito e ser sustentado por esta nação todos os dias da sua vida, jamais havia pensado que pudesse ser desta forma. O certo é que mesmo o mais otimista da família não teria imaginado tamanha bênção. Jacó havia orado apenas por alimento para sua família e rebanho e Deus fez muito mais.

Após receber a boa notícia de seus filhos, poderia ter solicitado a José que enviasse mantimentos para Canaã, ou que fossem visitados de tempo em tempo, para assim não se misturarem com os egípcios.

Ou então José poderia largar o Egito para viver com sua família em suas terras, nada mais lógico. Deixaria um sucessor em seu lugar, ou na pior das hipóteses, poderia licenciar-se do cargo para passar um período com eles. Certamente o grato Faraó concederia.

José não poderia abandonar o Egito, pois aquela nação precisava de seus préstimos e não tinha outro para governar, sem contar que a diferença de cultura e estilo de vida seriam sentidos logo nos primeiros dias. Da mordomia egípcia garantida às necessidade gritantes de Canaã, certamente o arrependimento pela troca seria imediato. Sofreu tanto e agora, na bonança, deveria aproveitar. Quantas decisões em curto espaço de tempo, que poderiam afetar a vida de seus descendentes.

José, seus irmãos e pai não pensaram somente no bem estar físico da família ou das futuras gerações e não foi um erro Jacó ter aceito o convite[3] do filho, que também não errou em continuar naquele lugar desempenhando a sua função. Os seus irmãos também não erraram. Toda aquela situação era o inicio do cumprimento do que houvera sido prometido a Abraão (Gn 15.17-21). Estavam tão felizes com o desfecho daquela história, livres do peso e do remorso, que ninguém poderia ser condenado. Era momento de alegria e não de cobrança.

Qual seria a atitude de todos, caso Deus revelasse o que aconteceria com aquele povo[4]? Ficariam em suas terras para preservarem a linhagem ou aceitariam o convite para usufruírem do que o Egito estava lhes oferecendo no presente sem se importarem com o futuro? Que terrível dilema.

Permaneceriam naquelas terras o tempo que fosse necessário, era uma espécie de recompensa para a geração daquele patriarca, que poderia imaginar ser aquela, a grande nação, que Deus havia prometido para Abraão. A partir do momento que se sentissem ameaçados ou quando perdessem todas estas regalias, seria necessária uma nova intervenção Divina, por enquanto deveriam se alegrar por aquela bênção. Foi uma trajetória vitoriosa, mesmo que não a considerasse.

Toda a história narrada por Jacó, na presença de Faraó, foi necessária para comprovar que aquela geração não era composta de meros coadjuvantes, eram especiais, mesmo diante de tantos problemas. Não tinha como aquele governante não se apaixonar e respeitar a narrativa daquele bom e velho patriarca.

José havia contado a história de sua família para Faraó antes do encontro e preparou seus irmãos, que deveriam falar a verdade (Gn 46.31-34), mesmo porque “aquele que estava assentado no trono[5]” já conhecia a história de todos, sabia que eram pastores e queria ouvir deles que desejavam ser na cidade estranha o que sempre foram em Canaã, pastores. Afinal não tinha como negarem suas origens.

Não tinha como a família negar suas origens, porém o ambiente poderia favorecer o contrário, por isso José orientou seus irmãos a declararem o objetivo de cada um. Sempre foram pastores e deveriam continuar, mas deviam tomar cuidado com os egípcios, pois muitos desqualificavam aquele tipo de trabalho. Faraó queria apenas conhecer os planos de cada um para o futuro. A declaração dos irmãos impediu que se misturassem aos egípcios.

A única intenção de José era cuidar de seu pai e irmãos até que tivessem condições de se manterem com suas próprias forças e recursos.

Na sua ótica, como homem justo, não seria correto sustentá-los por toda a vida, pois isto contrariava os seus princípios. Para tanto arquitetou um plano para ajudá-los no início.

Os famintos egípcios fariam qualquer coisa para adquirirem alimentos, por isto José, pouco a pouco, foi minando as forças deles. Primeiramente cedeu alimentos em troca do escasso dinheiro.

Quando não tinham mais recursos financeiros ofereceram os seus cavalos, ovelhas, vacas e jumentos, presente ideal que José poderia dar a seus irmãos, haja vista a experiência de pastores. Alguns destes animais poderiam servir para futuro sacrifícios, caso tivessem ainda este zelo. José percebeu que se ficassem em posse dos egípcios, certamente seriam abatidos, pois a fome assolava a região e não perderiam esta oportunidade.

Quando acabou o dinheiro e os animais, os egípcios ofereceram suas terras e liberdade em troca de alimentos. Tornaram-se servos de Faraó para não morrerem durante o período de fome e desta forma contribuíram para o bem estar de Israel naquelas terras.

O Egito se preparou, pois havia pão[6] entre eles, mas a fome também assolou a muitos.

Aos poucos José conseguiu estabelecer a sua família[7] no Egito, durante o período de adaptação, fazendo uso da própria riqueza deles, sem deixar com que percebessem todo o seu plano.

Se todos os irmãos imaginassem que a vida mudaria a partir do cumprimento dos sonhos de José certamente teriam se prostrado ali mesmo em Canaã, na época dos sonhos.

A vida daquela família mudou de uma hora para outra, saíram da escassa Canaã e foram para o próspero Egito e para a melhor parte, onde viveriam por muitos anos.

Mas o retorno a Canaã foi previsto por Jacó (Gn 48.21), antes de sua morte e confirmado por José (Gn 50.24-25). O filho prometeu não sepultar o pai naquela terra, conforme instruções recebidas (Gn 47.29-30) e também pediu o mesmo para seus irmãos.

Os filhos de Israel encontraram certa dificuldade para entenderem esta profecia de José (Gn 50.25), pois até então tudo corria normal e não havia nada que temer no Egito, havia prosperidade, felicidade e gratidão.

Talvez um revés, uma mudança na política egípcia, um governo diferente ou então que a ingratidão, mais cedo ou mais, pudesse bater à porta daquele povo que um dia foi tão ajudado por José. Viveram por muito tempo bem, mas como tudo tem um fim, após a morte do patriarca e dos governantes[8] que conheceram sua história, os egípcios permitiram o nascimento da ingratidão.

José foi sepultado no Egito em um sarcófago (Gn 50.26), fato que atestou sua definitivamente sua morte, justamente o que a túnica colorida manchada de sangue não foi capaz de fazer. 

A túnica manchada de sangue, resultado de mentiras, deixou saudade, choro e sofrimento para o pai, mas o caixão, que representava a realidade nua e crua, deixou um legado e uma história. José poderia ter sido sepultado como um chefe de Estado, com honras e em uma estrutura inferior a dos faraós, mas optou pela terra[9], pois sabia que um dia Deus visitaria Israel naquele lugar e os tiraria dali.

José enxergava o futuro e não o presente, não queria pirâmide, queria um túmulo na terra e não nas grandes construções faraônicas[10], pois poderia soar como ofensa ou ataque à cultura egípcia caso Moisés violasse o local onde estava sepultado o patriarca anterior.

O período que se seguiu foi de intenso sofrimento para Israel, pois os anos vividos sob o regime de escravidão, foram de muita humilhação, opressão, choro e mortes, justamente no momento em que os hebreus se viram sem nenhum patriarca para protegê-los.

A saída dos hebreus de solo egípcio foi rápida e não houve tempo para implosão, destruição ou reformas no túmulo de José. O que havia sido prometido foi cumprido pelos filhos de Israel.

Após quatrocentos e trinta anos de sofrimento e distanciamento de Deus, Moisés conhecendo a promessa não enfrentou dificuldades para cumpri-la. Os ossos de José foram retirados do Egito (Ex 13.19) e enterrados em Siquém (Js 24.32). Promessa feita, promessa cumprida.

O homem era sábio, preferiu perder a honra momentânea, para depois ser honrado por Moisés, pois foi lembrado e saiu nos braços do libertador de Israel.

A situação do quarto patriarca oscilou muito, não por culpa dele, mas devido ao plano de Deus. Esteve entre os seus irmãos e foi rejeitado, esquecido, sofreu, pagou um alto preço, mas no momento certo de sua vida foi exaltado. Subiu ao trono e mesmo em condições totalmente favoráveis não se vingou de seus irmãos tão logo os viu, pelo contrário, acolheu e ajudou muito.

Mas quando poderia ter retornado para sua terra, para rever seu pai e buscar sua família, não foi, ficou praticamente na metade do caminho, esperando a aproximação de seus convidados. Não pisou em sua terra, mesmo tendo todo o poder e autoridade, somente fez isto quando foi sepultar seu pai, momento em que esteve rodeado por três povos, egípcios, hebreus e cananeus.

O mesmo ocorreu com Jesus que também esteve entre os seus e da mesma forma foi rejeitado, preso e humilhado. A sua morte o coroou, a ressurreição o glorificou e a ascensão devolveu toda sua glória deixada, quando se tornou carne. Em sua segunda vinda, esta terra não será pisada, mesmo com todo o poder e autoridade, tal como José, mas no retorno para derrotar o Maligno e instalar seu reinado, a história será diferente.


[1] Esaú seguiu para suas terras, Seir e Jacó para Salém em Canaã (Gn 33.16-20).

[2] Os filhos de Israel habitaram nas terras de Gosén, no delta do rio Nilo (Gn 46.29).

[3] Jacó apresentou o Egito aos hebreus, enquanto que Moisés os ensinaria a deixar para trás e esquecer definitivamente.

[4] Quatrocentos e trinta anos de convívio no Egito, alguns destes anos sob intensa escravidão e sofrimento.

[5] Aquele que está assentado no Trono conhece toda a história. Não tem como esconder dEle.

[6] Havia muito pão Egito, mas também havia fome (Gn 41.54-55).

[7] José salvou o Egito da crise, mas tudo teria sido em vão caso não tivesse perdoado seus irmãos.

[8] Os hicsos foram expulsos do Egito e juntamente com eles foi embora à gratidão pelos feitos de José.

[9] Se fosse sepultado em uma pirâmide, José seria lembrado como uma múmia e não pelos seus feitos.

[10] Não recebeu a glória dos egípcios, mas depois recebeu de Moisés.

Por: Ailton da Silva - 12 anos (Ide por todo mundo)

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