domingo, 9 de maio de 2021

Os patriarcas. Coincidências ou repetições da história? - Capítulo 2

Abraão: Primeiro patriarca. Deus falou com ele.

“Saia da tua terra e da tua parentela.” 

Abraão[1] foi chamado e recebeu a maior promessa de sua vida, a possessão das terras de Canaã, ora habitada pelos descendentes de Cã, filho de Noé.

Abraão, filho de Terá, irmão de Naor e Harã. De Ur dos caldeus, partiu para Harã e depois para as terras de Siquém. Deixou para trás um passado idólatra[2] e de ignorância, que não foi capaz de manchar a sua chamada. A partir deste momento sua história tomou novos rumos.

Deveria sair daquele lugar, deixar a sua parentela e esquecer definitivamente tudo o que havia aprendido e vivido naquele universo idólatra, uma mudança radical. Creu e saiu primeiro para ver a Terra Prometida depois e isto lhe foi imputado por justiça.

Abraão não titubeou entre dois pensamentos, pois estava ciente que seu tempo naquele lugar havia acabado. Deus nunca havia se manifestado[3] entre os humanos com mensagens e promessas daquele porte.

As promessas reveladas a Abraão, ainda em Ur dos Caldeus (At 7.2) e depois confirmadas em Harã (Gn 12.1-4), foi a primeira e única manifestação intensa e clara de Deus aos homens.

A sua jornada seria longa, onerosa, cansativa e, pela fé, pois não fora revelado o local exato, a latitude, longitude, direção e tampouco a duração da viagem, apenas ainda ecoava em sua mente: “largue, saia, vá que Eu te mostrarei”. Deus prometeu abençoar durante a viagem e garantiu que seu nome seria engrandecido, mesmo que fosse esquecido pelos parentes.

Na época, era comum, os pobres ou fugitivos largarem, abandonarem familiares e terra natal, mas não era este o caso de Abraão, pois não se tratava de um “João ninguém”. Ele fazia parte de uma família importante.

A promessa recebida dizia respeito à posse definitiva daquelas terras, já habitadas por outros povos, que até então não faziam questão ou não reconheciam a sua importância e também foi prometido um filho e uma grande nação, por isto, saiu confiante, largou família, mordomias e, principalmente deixou para trás lembranças idólatras, para peregrinar.

Abraão, a partir do momento que decidiu obedecer às ordens de Deus, experimentou um período de ganhos espirituais, jamais proporcionado a outro homem, mas antes disto vivenciou mudanças drásticas no campo familiar. Deixou amigos, parentes, a segurança e recursos materiais para peregrinar por terras desconhecidas. Habitou entre os cananeus, pessoas de má fama, por fim enfrentou a fome ao chegar a Canaã, e peregrinou ao Egito.

Uma experiência espiritual inédita. Como crer tão de repente em mensagens daquela natureza? Creu e seguiu viagem rumo à Terra que lhe havia sido prometida durante as revelações.

Durante a caminhada recebeu novamente a visita de Deus para lhe confirmar a promessa e ratificar o seu desejo de vê-lo longe daquelas terras idólatras. Aquelas revelações serviram para Abraão contemplar aquilo que seria, num futuro bem próximo, o fruto de sua semente, Israel, tudo teria início a partir dele.

Mas o patriarca esteve o tempo todo ao lado de uma esposa estéril. O que poderia esperar de bom, principalmente sobre a continuidade de sua semente? Talvez entre sua parentela pudesse encontrar outras mulheres que lhe dessem filhos. Não esperava isto.

Saiu de suas terras acompanhado de seu sobrinho Ló, contrariando as ordens de Deus. Talvez o tenha levado por ser filho de seu irmão falecido Harã, pela simpatia, presteza ou por algum outro interesse, tornando-o em seu herdeiro legitimo, até aquele momento, mas isto não seria por muito tempo, pois logo seriam separados por providência Divina. O plano era com ele e sua família e não com os seus parentes. O mal precisava ser cortado pela raiz.

Deus fez uso de duas táticas para separá-los, a primeira foi através dos desentendimentos que ocorreram entre os pastores de Abraão e Ló. Na verdade as contendas deveriam ter um fim e não poderiam se prolongar, pois afetariam o caráter de ambos, além do mais as brigas poderiam abrir oportunidades para os inimigos atacarem. Os dois deveriam ser diferentes dos habitantes daquela terra. Não seria bom serem coniventes com aquelas desavenças.

A segunda tática usada por Deus foi uma prática desconhecida pelos humanos e que não deixou sequelas, rancores ou tristezas entre eles, situação esta que seria inevitável caso a separação ocorresse por intermédio de ações humanas.

Deus levou os dois para um lugar de onde puderam avistar toda aquela terra e deu a oportunidade para que escolhessem o próprio caminho.

A separação não se deu por brigas, disputas, mas Deus os separou por um ato tão sublime, incompreensível ao nosso entendimento. Eles foram separados pelos olhos.

Os dois contemplaram o vasto território. Ló viu as mais belas e verdejantes campinas do Jordão, bem regadas, pelo menos antes da destruição[4]. Era um sinal de prosperidade, riqueza, beleza e bem estar. Seus familiares gostariam da escolha e aprovariam a separação.

E Abraão o que viu? Pela fé viu uma vegetação rara, rasteira, lugares secos, lagos e rios minguando, dores, tristezas, rancores, angústias, solidão, mentiras, desavenças, problemas e mortes, mas também viu bênçãos, milagres, providências, operações de maravilhas, misericórdia, grandes intervenções de Deus na sua família e descendência.

Enquanto um enxergava apenas mato e gostava do que via, pois estava preocupado apenas com o bem estar do seu rebanho, o outro contemplava as promessas, ou seja, o futuro de sua descendência, que seriam milhares como as estrelas do céu e a areia do mar. Era a continuidade do plano de Deus em sua vida e na sua família. Entre o presente e o futuro Abraão não teve duvidas, escolheu o melhor, o futuro.

A escolha[5] desastrosa de Ló foi fruto de sua cobiça, pois pensou somente no bem estar de seu rebanho. Em nenhum momento se preocupou com sua família ou demonstrou alguma preocupação.

Seus olhos carnais deram instantaneamente a resposta para o seu coração: “escolha o bonito, escolha a melhor parte”. Ló se mostrou completamente diferente de seu tio.

Ficou com a melhor parte, aparentemente, pois naquele momento e durante algum tempo, foi uma terra vistosa, verdejante, prazerosa, mas como todo resultado de visão carnal é enganosa, não demorou para que fosse revelado o lado sombrio de Sodoma e Gomorra.

O que era feio poderia ficar bonito. O que não agradava, poderia agradar com o tempo. O que provocava choro poderia ser tornar motivo de muita alegria, algum dia. Esta era a esperança de Abraão e certamente foi motivado a concordar com a escolha do sobrinho. Não questionou.

A escolha de Ló deixou claro que a fé e prosperidade estava presente na vida de Abraão e não na dele. Em nenhum momento o patriarca imaginou que o lado escolhido pelo sobrinho pudesse ser o local que Deus havia prometido.

Ló aceitou a proposta, se tivesse visão espiritual teria preferido viver ao lado do tio e teria sustento, socorro e prosperidade até o fim de sua vida. Acampou aos arredores de Sodoma e com o passar dos tempos, diante do comodismo, acabou se mudando para a cidade. Ficou com a melhor parte do acordo, mas lá no fundo Abraão gritou: “mesmo na pior parte eu darei e farei o melhor para Deus”.

Mas, no que parecia bom se tornou o principio das dores e o maior sofrimento[6] da vida de Ló. Neste caminho tão bonito, verdejante, perdeu bens, prováveis amigos, esposa, ficou distante do seu tio, o seu melhor amigo, suas filhas corromperam o caráter e por fim, para completar, viu surgir na humanidade as duas nações que se tornariam inimigas do povo de seu tio. A escolha de Ló foi um verdadeiro desastre. Poderia ter pensado melhor.

A separação realmente não deixou rancores entre tio e sobrinho, prova disto foi o fato de Abraão ter se levantado com seus criados para resgatar Ló das mãos dos quatro reis que guerreavam contra os reinos daquela região.

Outro fato que comprova a boa relação dos dois mesmo com a separação, pelo menos por parte de Abraão, foi quando o patriarca clamou a Deus em favor de Ló, após ser avisado sobre a destruição de Sodoma e Gomorra.

Anos mais tarde a história se repetiu e novamente estavam os descendentes de Abraão e Ló, frente a frente e diante de uma decisão dura que mudaria a vida delas. As viúvas Noemi e Rute, sogra e nora, estiveram diante de um grande dilema, mas tomaram decisões sábias.

A sogra querendo devolver a nora aos moabitas, seu povo e seu “mundinho de antes”, enquanto que ela desejava ardentemente conhecer e se tornar propriedade do Deus de Israel. Nesta ocasião, a falta de visão que faltou a Ló sobrou para Rute que tomou a melhor decisão de sua vida e viu tudo mudar.

Após a separação, Abraão continuou sua jornada, mas agora sentia algo diferente, tinha a certeza de que estava no rumo certo, não restavam dúvidas e já se sentia um legitimo cidadão dos céus, porém faltava algo para completar a bênção de Deus.

Continua...



[1] Deus trocou o nome de Abrão para Abraão (Gn 17.5) e implantou sua intenção no coração dele.

[2] Passado idólatra da família do patriarca Abraão, atestado por Josué (Js 24.2).

[3] Deus havia se manifestado anteriormente somente para atribuir tarefas (no Éden), corrigir problemas (pecado original) e para revelar todo o seu sentimento em relação a sua criação (revelação a Noé).

[4] Antes da destruição de Sodoma e Gomorra (Gn 19.24).

[5] Ló fez a sua escolha e separação do tio foi inevitável. Anos mais tarde a história se repetiu com Rute, a moabita, descendente de Ló, que diante da mesma situação preferiu continuar junto e não se separou de sua sogra Noemi.

[6] O bonito ficou feio, a riqueza se perdeu ante a destruição de Sodoma e Gomorra. (Gn 19.24-38).

Por: Ailton da Silva - 11 anos (Ide por todo mundo)

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