sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Prefiro murmurar no deserto. As dez murmurações do primogênito. Capítulo 1

b) Águas que separaram duas nações.

Águas partidas é bem diferente de águas espalhadas, por isto Deus deixou bem claro o que estava fazendo ali no Mar Vermelho diante dos olhos dos hebreus e egípcios.

Nas águas partidas, caminhos são abertos, lideres verdadeiros aparecerem e o solo seco e firme para pisarmos aparecem. Tudo isto caracteriza a solução para os problemas. O Maligno trabalha em águas espalhadas, pois apresenta lama e não solo firme.

Deus trabalhou no imaginário dos hebreus, pois muitos boquiabertos viram a cena e pensaram ou gritaram: “eu acredito no que estou vendo”.

Deus soprou o vento, amenizou a temperatura, partiu as águas e abriu um caminho seco para os hebreus, que estiveram diante de duas grandes paredes de água e um solo firme, que representavam, respectivamente, o poder de Deus e o limite humano.

Mas quem foi o primeiro corajoso a desbravar o mar rasgado ao meio (Ex 14.22) para enfrentar as duas paredes de água? Será que Moisés e Arão foram os primeiros a pisarem naquele solo seco para encorajarem os demais?

Alguns atravessaram com medo de desmoronamento, outros passaram admirando a cena e uma minoria atravessou correndo sem olhar para os lados. O desejo de chegarem às margens era maior que o medo.

Aquela autoestrada aberta em meio ao mar rasgado poderia se tornar um grande vale de sombra e morte, pois:

  • Estavam sob forte calor, já que a nuvem que protegia havia se deslocado para o final da multidão;
  • Estavam diante daquelas duas paredes de água que poderiam desmoronar a qualquer momento. O lado bom era a sombra, o ar fresco e a umidade que produziam;
  • O inimigo estava à retaguarda, bramando como leão, esperando somente a oportunidade para avançar.

Como acreditar no impossível? Como imaginar a morte do inimigo e a vitória deles? O mais fácil seria esperarem a derrota.

Atravessaram o mar (Ex 14.22), mas não descansaram, pois se deram conta que ainda estavam vulneráveis. A torcida, após a travessia, foi pelo fechamento imediato as águas.

Os hebreus estavam na outra margem, vendo o inimigo iniciar a travessia, todos zombando de Deus, pois diziam: “será que o Deus deles esqueceu de fechar o mar ou então está viajando como Baal[1]” (1 Rs 18.27).

Os hebreus aguardavam ansiosos o fechamento do mar para definitivamente ficarem livres do opressor. O desejo era que ficassem salvos de um lado e o inimigo no outro, porém aquelas águas não seriam capazes de separá-los por muito tempo.

Caso as águas fossem fechadas, antes da travessia do inimigo, certamente os egípcios dariam a volta pelos golfos e os alcançariam, por isto Deus não fechou de imediato. O seu plano era outro.

Deus havia planejado algo jamais visto, por isto retardou a sua ação final. Foram três os motivos para isto:

  • Deus queria testar a fé de seu povo. Ficariam à margem esperando o desfecho ou sairiam correndo como ovelhas (I Rs 22.17) sem pastor?
  • Para mostrar que chegaram até ali, não pelas suas próprias forças;
  • Deveriam esperar mais um poucochinho de tempo para contemplarem a bênção completa, pois de que adiantaria livrá-los no mar para deixa-los a mercê do inimigo em pleno deserto, que facilmente alcançaria após darem a volta pelos Golfos.

Gritavam, clamavam e imploravam para Moisés: “Feche o mar, porque nos alcançarão, você não está vendo”. Mas o que poderia ser feito? Somente o EU SOU, pode fechar o que está aberto e somente Ele pode abrir o que está fechado.

As águas do mar Vermelho separaram, por alguns instantes, duas nações, dois povos, duas histórias e dois objetivos. Um queria resgatar a mão de obra barata perdida e a outra parte desejava ardentemente consolidar sua liberdade e tomar posse da promessa. Os dois lados viram o fundo do mar, mas somente um deles sobreviveu para registrar a história para seus descendentes.

Deus retirou a nuvem e permitiu a aproximação dos egípcios. A caça, amedrontada, esperava ansiosa o fechamento do mar, enquanto que o caçador imaginava que aquilo fosse um deslize de Deus para iniciar o ataque.

Mas diante daquela visão assustadora, quem seria o primeiro dentre os soldados egípcios a encarar as muralhas de água? Até agora o Egito havia colecionado somente derrotas e frustrações diante do Deus dos hebreus. Valentes não faltariam para darem o primeiro passo.

O Egito não percebeu o plano de Deus, que esperava o somente último carro egípcio a entrar no mar para fechá-lo definitivamente.

Enquanto isto do outro lado, aparentemente salvos, os hebreus não cantaram o hino da vitória, ficaram esperando o desfecho daquela história, que culminaria com a morte do inimigo. Sabiam que o mar havia sido aberto para eles e não para os perseguidores. No momento certo o grande Regente permitira o início do hino da vitória.

O fato de estarem a salvos de um lado do mar, não significava que a vitória estava completa. O temor ainda tomava conta, pois viam o inimigo caminhando em direção deles.

Deus queria fazer algo grandioso, pois com todos aquelas carruagens[2] do ano e cavalos vigorosos, certamente dariam a volta e alcançariam os fracos, os doentes e idosos hebreus. Então que tipo de bênção seria aquela? O tempo da luta foi aumentado para que a derrota não fosse antecipada. Seria melhor esperar um pouco mais para ver o inimigo ser eliminado de uma vez por todas.

Os egípcios fariam tudo para reaverem sua mão de obra barata e escrava, até mesmo se embrenhar água adentro.

O Egito poderia ter traçado outra rota para cercar os hebreus do outro lado do Mar Vermelho, porém se fizessem isto estariam justamente antecipando o grande milagre de Deus, pois para esperarem do outro lado teriam que acreditar que a caça passaria pelas águas.

Portanto, pela ignorância do poder e do plano de Deus, os egípcios decidiram correr atrás da caça e não esperar do outro lado como astutos caçadores que eram.

Os hebreus viram o inimigo tentando usufruir de uma bênção que não era para eles. Os filhos de Rá tentaram com arrogância se aproveitar, mas não tiveram sucesso. É isto que acontece quando tomamos posse do que não é para nós.

Assim como nos dias de Noé uns foram levados pelas águas (Ex 14.30) e outros foram deixados à margem salvos (Ex 14.31). A diferença foi que no caso da arca, ao inicio da chuva, os ímpios gritaram para que a porta, de madeira fosse aberta, já no mar Vermelho, os egípcios, não esperavam que a porta de água fosse fechada.

Atravessaram sem a necessidade de embarcações, pontes ou aeronaves. Algo inédito que maravilhou todas as nações. Que deus pagão seria capaz de fazer o mesmo?

Sequer os sapatos foram sujos de lama, pois tudo estava seco e limpo. A sujeira ficou para trás, faltou apenas o tapete vermelho e a comitiva[3] de boas vindas, que não demoraria a aparecer.

A divisão e a posterior recomposição daquelas águas se tornaram o grande triunfo dos hebreus, sobre os seus inimigos, e o terror para as nações vizinhas, principalmente para os cananeus que apreensivos esperavam a aproximação. Este acontecimento definitivamente inseriu Israel no cenário geopolítico mundial da época.

Aquela se tornou a décima primeira praga sobre o Egito. O cenário foi cuidadosamente montado por Deus. Foi assustador o número de hebreus e estrangeiros que saíram libertos, por isto Faraó reuniu um grande contingente para reaver sua mão de obra escrava. Não mediu esforços para tal.

As consequências foram catastróficas para o Egito. Todos os seus soldados morreram no mar Vermelho. Naquele dia, o exército egípcio foi reduzido drasticamente e a segurança da nação ficou comprometida.

Ali mesmo, no mar Vermelho, o Egito foi novamente assolado. Cavalos, carros e soldados foram lançados ao mar. Os príncipes morreram afogados. Boa parte da nação egípcia sucumbiu diante da grandeza de Deus. Todos foram consumidos como palhas e afundaram como pedras.

Então os hebreus cantaram o hino da vitória quando viram o fim trágico dos perseguidores. Cantar depois do caminho aberto é fácil, mas se mostrar forte e encarar o problema somente Moisés foi capaz, pois teve coragem e acreditou no livramento desde o início.

Foi notório o contraste dos sentimentos. Medo, dúvida, revolta, desejo do retorno e murmuração, mas depois que se viram livres do mar e dos egípcios, se alegraram como nunca e experimentaram uma novidade de vida.

Agora sim o pavor se espalhava entre as nações vizinhas, que temiam pela passagem dos hebreus por seus respectivos territórios[4].

A notícia da saída do Egito, as providências de Deus e a fama de potenciais guerreiros se espalharam rapidamente, tanto que as outras nações já os viam com outros olhos.

O mar Vermelho foi rasgado ao meio, uma única vez, para dar salvação aos vitoriosos hebreus. Nunca foi reaberto para que os derrotados passassem novamente, na intenção de retornarem ao Egito. Caso realmente aparecesse corajosos para retornar deveriam atravessá-lo a nado ou à base de chicotadas dos egípcios ou na pior das hipóteses dariam a volta pelos Golfos e ficariam bem pertinho e dariam de cara com os temidos filisteus.

O compromisso de Deus é com seu povo, por isto abriu a porta para que passassem à salvos e em seguida a fechou[5]. O grande “Eu Sou” não havia esquecido o mar aberto, apenas esperou o Egito iniciar sua viagem sem volta.



[1] Divindade fenícia adorada, algumas vezes, pelos israelitas, já em Canaã, que teve seu ápice vergonhoso durante o reinado de Acabe e Jezabel (1 Rs 16.31).

[2] Faraó se aparelhou com o que havia de melhor no Egito. Sua intenção era retomar o controle da situação.

[3] Filisteus, amalequitas, edomitas, midianitas, moabitas, amonitas, cananeus e outros.

[4] Tal como Edom, que não permitiu a passagem de Israel (Nm 20.14-21).

[5] Deus esperou o momento para que o último soldado egípcio estivesse entre as duas paredes de água para fechá-las.

Por: Ailton da Silva - 11 anos (Ide por todo mundo)

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