Uma infância e
juventude dignas de um rei, com todas as mordomias, riquezas e privilégios.
Ninguém em sã consciência trocaria esta vida no palácio onde recebia do bom e
do melhor para sofrer junto com os hebreus que não tinham mais esperanças.
Alguém optaria pela sofrimento em detrimento ao luxo? Somente um servo de Deus
rejeitaria o primeiro estado para conhecer e viver conforme os seus irmãos.
Aos poucos Deus
foi trabalhando na vida de Moisés para que rejeitasse aquela forma de vida,
pois o patriarca deveria ser o primeiro a sair do Egito para que o povo saísse
depois.
Aquela cultura em nada se identificava
com a sua futura missão, por isto a escolha[1] foi difícil. Quanto
conhecimento deixaria de receber, quantos amigos e recursos financeiros?
Quantas perdas?
Os hebreus também perderam muito quando
saíram do Egito, pois deixaram para trás as habitações, as raras comidas nas
horas certas e o principal, a terra para enterrar seus corpos sem vida quando
morressem na escravidão. Isto seria capaz de segurá-los?
O primeiro passo deveria ser a negação de
sua filiação egípcia. O sofrimento do povo foi suficiente para que Moisés
tomasse a decisão.
Pela fé, somente pela fé, recusou ser
chamado de filho da filha de Faraó, um assombro, a realeza se surpreendeu, os
servos e escravos não entenderam. Muitos deles se imaginavam na posição de
Moisés para aproveitarem, mas recusou tudo aquilo.
Será que Deus permitiria que de príncipe
fosse direto para a condição de presidiário? Como diria ao povo ser o escolhido
para libertá-los daquele sofrimento? Acreditariam em um homem que havia perdido
a mordomia do palácio? Como crer em uma pessoa rebaixada de uma hora para outra?
Deus não queria um príncipe, escravo,
guerreiro, soldado ou general, mas sim um pastor. O plano para colocá-lo na
posição desejada foi rápido, simples e direto. Bastava conhecer de perto a
aflição do povo.
Quarto livramento. Coincidências ou repetições da história?
Certa ocasião, passeando entre seus
irmãos hebreus, contemplou uma cena que o fez tomar uma decisão que marcaria
sua vida para sempre.
Como era conhecedor de sua linhagem, não
permitiu que um egípcio afligisse um irmão hebreu, mas por que demorou para
agir? O que o impediu de sentir as dores de seu povo antes? Ou percebeu e não
atentou, pois se julgava privilegiado pela situação diferenciada?
Moisés pensou que resolveria os problemas
de Israel através da valentia, força e conhecimento, agindo de acordo com sua
própria vontade, sem consultar ou se inteirar do plano de Deus para livrá-los
do opressor. Mesmo sábio, instruído em toda ciência, lhe faltou entendimento
para saber que não era o momento correto para agir, estava se adiantando ao
tempo de Deus e quando isto acontece, o resultado final, sempre é o fracasso.
Neste episódio Deus oficializava a sua
chamada e a resposta foi materializada em sua atitude, porém não imaginava que
as consequências pudessem afetar o seu trânsito entre os dois povos, pois
alguns dias depois esteve diante de uma cena idêntica e foi mal interpretado,
incompreendido pelos seus irmãos e acusado de assassinato. A sua intenção era
somente ajudar, como na ocasião anterior.
Esta ocorrência o fez tomar outra decisão
radical, a fuga para o deserto[2],
semelhante a Abraão, Isaque, Jacó e José, inclusive se deparando com os mesmos
problemas em relação a mudança do padrão de vida enfrentado pelos patriarcas
anteriores:
- Do conforto e mordomia egípcia encarou a
dureza do deserto, desabrigado e na solidão, como Abraão, quando largou sua
parentela, posses e herança;
- Saiu sem rumo, desconhecendo o futuro,
sem a certeza da volta, na solidão de seus pensamentos, assim como Isaque
quando caminhava para o seu sacrifício não consumado;
- Atormentado pela incompreensão de seu
próprio povo. Sua intenção foi ajudar, mas acabou rotulado de malfeitor,
assassino. Fugiu para não ser morto por vingança, assim como Jacó, fugitivo
incompreendido, acusado de matar os sonhos de seu irmão primogênito;
- Possuía o conhecimento de toda ciência
egípcia, mas não teve a sua autoridade reconhecida e acabou se tornando um
pastor de ovelhas, abominação para os egípcios. Trajetória idêntica foi
percorrida por José, que detentor de profundos conhecimentos recebidos de seu
pai, também não teve a sua liderança reconhecida, pelos seus irmãos, se
tornando um escravo e prisioneiro no Egito;
- Peregrino em
terras estranhas e afastado da família, como Abraão, Jacó e José que largaram
tudo, mordomia, família, herança e peregrinaram guiados por Deus para
alcançarem a vitória.
A fuga foi a única alternativa para
Moisés, pois imaginava que jamais teria condições de mudar aquela situação. Sem
esperança e perspectivas, jamais cogitou a possibilidade de retorno.
Aprendendo desaprendendo
As confirmações das chamadas das esposas
dos patriarcas se deram ao redor de poços de água, envolvendo rebanhos
sedentos. Aconteceu desta forma com Rebeca, que deu
de beber aos camelos do servo de Abraão, antes de ser levada para se casar com
Isaque. Anos mais tarde Jacó repetia esta história quando matou a sede do
rebanho de Raquel, tomando-a por esposa, depois de um longo período de
trabalho. Agora Moisés fazia o mesmo com o rebanho de seu futuro sogro, Jetro.
Moisés estranhou a mudança de ambiente,
pois diante de todo o seu conhecimento científico, estava desempenhando a
função mais abominada pelos egípcios, pastor de ovelhas. O curso natural seria
o crescimento, bem diferente da situação em que estava.
Em Midiã, sua nova morada, aprenderia
algo bem mais útil do que havia aprendido no Egito. Com a mente esvaziada,
perderia o seu ímpeto e valentia. Finalmente seria apresentado à mansidão e
desta forma poderia entender os problemas de todos os necessitados que, um dia,
Deus colocaria sob sua responsabilidade.
No Egito aprendeu com mestres, doutores e
livros, mas não foi capaz de exercer sua autoridade com sabedoria sem utilizar
a força física. Agora aprenderia com as ovelhas a ser manso, humilde e pequeno,
para assim ser transformado em um verdadeiro líder. Afinal, a missão pedia um
homem com este perfil.
Deus preparou José para levar o seu povo
ao Egito e agora estava capacitando Moisés para retirá-los daquele território.
Havia tanto por aprender e muito mais
para esquecer. Esta capacitação evitaria que pulasse etapas em sua vida e
serviria de experiência no futuro, pois suportaria as provações, adquiriria a
humildade, mansidão, se tornaria dependente de Deus e se sensibilizaria com os
problemas de Israel.
José viveu entre seu povo, aprendeu com o
pai, foi traído e incompreendido pelos irmãos, sofreu com a separação, para
depois receber a bênção do reencontro com sua família para morarem nas melhores
terras do território egípcio.
Moisés, incompreendido pelo seu povo, não
teve sua autoridade reconhecida. Saiu daquelas terras sem nenhuma provisão,
recursos e findou seu trajeto nas terras de Midiã, apascentando ovelhas. Anos
mais tarde se apresentou diante de Faraó, não para ser recompensado, mas para
entregar-lhe a mensagem de Deus, para afrontá-lo.
A autoridade de José foi reconhecida por
seus irmãos quando pediram socorro diante da fome. Moisés foi visto como um
líder quando se apresentou a Faraó para lhe entregar a mensagem de Deus. Nos
dois casos os patriarcas foram reconhecidos justamente nos momentos de maiores
aflições de Israel, fome e escravidão.
[1] Uma das
escolhas mais difíceis já tomadas por um homem (Hb 11.24-27).
[2] Foi
separado da família, mas o retorno foi tão festivo quanto dos patriarcas
anteriores.